Quinze minutos com Givanildo


Texto originalmente publicado na edição #3 da Revista Corner

Quinze minutos podem ser quase nada, ou uma eternidade, dependendo do contexto. É bem apertado, por exemplo, para sair de Olinda de carro e chegar ao Centro de Treinamento do Náutico, no bairro da Guabiraba, zona Norte do Recife. Para resenhar com alguém que tem 599 partidas com a camisa do Santa Cruz, e mais dez pela Seleção, além de boas temporadas a serviço de Corinthians e Fluminense, então, é um intervalo ínfimo. Mas para entender quem é e como pensa Givanildo Oliveira, quinze minutos na companhia dele é tempo até de sobra.

Por trás do semblante sério e enxuto que o técnico mostra diante das câmeras, não há absolutamente nada. Givanildo é um sujeito uno. É exatamente o que aparenta ser: um homem franco, que sabe onde pisa e tem consciência plena do valor de seu trabalho. Um profissional vitorioso, que conquistou a admiração de torcidas imensas sem jamais perder a simplicidade. Um eterno inquieto que, aos 68 anos, se considera realizado, mas dá cada treino como se fosse o último e não abandonou o hábito de traçar metas e sonhar.

Às vésperas de um jogo decisivo do Timbu pela Série B de 2016, contra o Atlético Goianiense, dava para ver que Givanildo estava fazendo um sacrifício para receber a Corner. Ele é daqueles que não têm, nunca, tempo a perder — sobretudo quando o líder do campeonato era o próximo adversário. Mas a pressa para iniciar os trabalhos da tarde logo foi deixada de lado pelo técnico, que respondeu a todas as perguntas com a calma e a franqueza que o tornaram uma das figuras mais admiradas do futebol brasileiro — exceto no Sul e Sudeste, onde seu carisma se resume ao folclore.

Em vez de se falar sobre o trabalho que desempenhava à época da entrevista, era preciso ter tempo para falar da trajetória de alguém que empilhou taças como atleta e técnico, mas cujas maiores conquistas foram fora dos gramados: mostrar que o nordestino não precisa se curvar para ser aceito, nem no futebol e nem na vida. Basta manter-se fiel à sua essência.

Como foi sua infância e sua relação com o futebol?

Eu era peladeiro, como era normal na minha época. Isso pelos anos 1965, 66. Eu fui pro Santa Cruz já era 68, já estava com 19 anos, perto de estourar a idade de juvenil, como se chamava na época. Minha vida foi lá em Olinda mesmo. Peixinhos, Vila Popular, onde eu nasci. Tinha muito campo de pelada na época. Naquela época tinha muito. Eu era o verdadeiro peladeiro mesmo. Tanto é que fui fazer o teste no Santa Cruz e passei.

Como foi o início no futebol profissional?

Comecei na base do Santa Cruz, fui aprovado, joguei, disputei um campeonato juvenil. Acabou esse campeonato, chegou agosto, que é quando eu faço idade. Estourei a idade, fiz 20 anos. E em seguida, no ano seguinte, disputei o campeonato de aspirantes, até ter a chance como profissional. Desde essa chance que me deram, eu entrei, fui bem, e acabou-se, nunca mais saí do time. O técnico era Gradim.

Teve algum treinador nordestino como referência?

Não tive. Na época é que não tinha mesmo. Hoje tem alguns por aí, espalhados, mas na época mesmo, era a maioria de fora. Eu tive Gradim, depois veio Duque, depois veio Evaristo de Macedo, Paulo Emílio, tudo de fora. Não tinha nordestino, não.

Quais são as dificuldades que os técnicos nordestinos enfrentam?

A dificuldade é a que encontra um engenheiro, um advogado, um gerente de banco que é do Nordeste. Pra chegar lá, é difícil. É difícil você ver um engenheiro daqui numa obra em São Paulo, mandando. É muito complicado. Melhorou muito essa parte, mas antes era pior. Porque, voltando pro futebol, hoje, você encara. Antigamente, contra um Flamengo, um São Paulo, times do Rio ou de São Paulo, você jogava pra perder de pouco. Hoje, não. Faz um tempo que mudou. Você encara. Têm algumas vantagens? Têm, mas você encara qualquer um deles. Ou aqui no Recife ou lá fora. Então, essa parte mudou. Mas esse lance do treinador, não tem como mudar, isso é muito complicado. Porque se aqui aparece um treinador, de repente ele começa a ir pra cima. É difícil um time lá do Sul vindo aqui. Aí vem time de Manaus, de Belém, do Ceará… mas pra um time de ponta de São Paulo chamar um treinador nordestino, é muito difícil.

Você acha que a questão do sotaque dificulta?

Não, porque o sotaque deles é uma porcaria também. Não tem nada a ver. Eu tive um problema uma vez, quando eu jogava ainda, o cara veio de gozação comigo pra falar porque tinha um bairro com nome de Arruda, outro com nome de Águas Compridas. Aí eu disse a ele, “vem cá, e aqui, Tatuapé? Anhangabaú? Tu quer falar o quê?” Ele calou-se e não falou mais nada. Quer dizer, não tem nada de sotaque. O que tem aí é o lado que você nasce.

É mais fácil triunfar com um sotaque do Sul, como o gaúcho, por exemplo?

Você falou em gaúcho. Quantos gaúchos? Felipão foi seleção brasileira. Tite, Mano, e muitos por aí afora. Isso é uma coisa natural deles. O nordestino sempre foi assim. Ele sempre foi olhado de lado. Em tudo.

Quando você foi jogar no Corinthians, enfrentou preconceito?

Eles [os paulistas] hoje ainda têm, só que antes era bem pior. Tem um bairro lá, que eu ia de vez em quando, onde eu tinha um amigo que tinha negócio, que se chama Brás. É onde fica a nata dos nordestinos. Todos os paulistas só chamavam de “paraíba”. Você podia ser baiano, pernambucano, do Rio Grande do Norte, e chamavam de “paraíba”.

Nem quando foi jogar no Fluminense?

No Fluminense, não, porque eu já estava até com uma idade mais avançada. Mas não teve discriminação. A palavra é discriminação. Isso aí existe. Mas felizmente, no Fluminense, essa parte não me atingiu, não.

E na Seleção?

Também não, porque inclusive eu fui convocado quando jogava no Santa Cruz, só que em seguida, o Corinthians me contratou. Então, eu jogava já no Corinthians, não senti nada não.

Algum jogador que você comandou já debochou do seu sotaque ou do fato de você ser nordestino?

Não. E nenhum é maluco não. Porque tá fora na hora.

Você considera que sempre teve o respeito da imprensa?

A imprensa, nem tanto. Você quer um caso?

Por favor…

Eu fui pra seleção, essa seleção era convocada todo mês. E todo mês tinha um amistoso. Quer dizer, passou o ano todinho sendo convocada e eu não entrei nem 20 minutos. A maioria entrou e eu fiquei na minha. Aí veio o Torneio Bicentenário, nos Estados Unidos. Fomos pra lá. Fizemos o primeiro jogo com a Inglaterra. Aí fomos para o segundo jogo contra os EUA, Falcão machucou faltando vinte minutos, eu entrei. Aí já arrebentei com o jogo. O próximo jogo, Itália, era o jogo final para ver quem era o campeão. No intervalo do jogo, mandaram me chamar lá em cima. Falcão não aguentou o tornozelo, aí eu entrei no jogo. Estava 1 a 1 o jogo. Nós ganhamos de 4 a 1 e fomos campeões. Depois desse jogo, nós tínhamos ainda três amistosos por lá, inclusive no México. Teve um em San Francisco, o penúltimo antes de vir embora pro Brasil. San Francisco estava muito frio e a gente ainda ia ter um treino na véspera do jogo. Eu fui para o café todo empacotado, acabei o café e eu fui para o hall do hotel lá. Sentei numa poltrona e fiquei. Tinha sido campeão do Bicentenário. Aí o que aconteceu… Você não lembra porque é muito novo, mas veio um cara que era um dos grandes do jornal, Solange Bibas. Veio Kléber [Leite], do Rio, que já foi presidente do Flamengo. O outro foi um tal de Jânio Quadros, era o nome do cara. Eu tô lá sentado, muito frio, esperando a hora de sair. Vieram os três. Aí chegaram “e aí, tudo bom?” Eu disse “tudo bem”. Eles falaram assim: “você não fala com a gente?” Eu disse: “Êpa! Eu não falo com vocês não, vocês que não falavam comigo. Estão falando agora porque eu joguei e fui campeão. Agora, vocês nunca me procuraram. Eu falo todo dia com a imprensa. Sabe com quem? Com um repórter lá do Recife, que acompanha aqui. Todo dia eu falo com ele. Agora, vocês nunca me procuraram. Então, não venham me dizer que eu não falo com vocês, não”. Aí ficaram tudo murchinho lá, tudo quietinho. Então, tem que ter a resposta, tem que ter na hora.

Enquanto treinador, como foi sua experiência no futebol paulista?

Eu não trabalhei no Guarani, eu passei no Guarani. Eu fiz três jogos, dezessete dias. Não dá. O cara era, sempre foi, de querer escalar, quis escalar meu time e eu disse “pode ficar com seu time que eu vou-me embora”. Então, eu passei. A Ponte, não. A Ponte eu fui uma vez, tirei do rebaixamento, estava lá em último lugar. No ano seguinte, estava de novo em penúltimo lugar, eu fui e livrei de novo. Esse trabalho meu foi, assim… E no Bragantino também, eu trabalhei.

Sentiu preconceito como treinador?

Como treinador, vale ainda a discriminação, até hoje. Porque com tudo que eu já fiz no futebol, eu nunca recebi um convite de um time de ponta. Nunca. Então, quer dizer, tem discriminação, com certeza.

Muitos dizem que seu jeito simples e direto desmistifica muitas das teorias e estratégias do futebol. Concorda?

Eu não posso nem dizer isso aí, porque se eu falar isso… Eu sou contra a teoria. E eu acho que a teoria também está dentro do futebol. A prática, em primeiro lugar. É quando eles entram no campo, pra jogar. Ali é a prática. Agora, a teoria é válida. É o que você mostra num quadro, escreve, aí é a teoria. Mas até o momento de chegar e fazer, é onde está o nome: jogo. Futebol é jogo, e jogo é difícil de você prever. Porque você fala do adversário, você explica, e daqui a um pouco o adversário entra em campo e vem diferente em alguma coisa. Você corre pra tentar mudar o posicionamento. Então, o posicionamento do futebol hoje é esse. Não tem muito segredo, não. A gente está jogando aqui, agora muda de vez em quando. Por exemplo, a maioria dos times hoje joga com dois pelos lados, um enfiado e um meia. Antes, eram dois meias. Então, é a maioria hoje. Só que eu fui campeão duas vezes pelo América jogando com três zagueiros. Aí muda tudinho. Então, é o momento do clube, das peças que você tem. Você não podia estar gravando aqui se esse celular estivesse quebrado. É o momento, é a peça que você tem, procure encaixar. Agora, você não pode prever nunca. Eu já tive uma vez, uma figura que chegou pra mim e disse assim “você vai jogar contra tal time, e o treinador de lá já trabalhou aqui. E ele é o seguinte: o time dele, com vinte minutos de jogo, tem que estar 2 a 0”. Eu disse: “não, peraí, não entendi”. “O time dele, ele treina pra quando estiver com 20 minutos de jogo, ele tem que estar ganhando de 2 a 0”. Eu disse: “se ferrou comigo”. Aí ele, “por quê?”. E eu disse “porque o meu, com dez minutos, vai fazer três, aí eu tô ganhando de 3 a 2”. É complicado, como o cara pode prever que vai estar ganhando? Então o futebol tem umas histórias, umas coisas, que não tem isso, não. Fora disso que a gente tá conversando, quando aparece essas coisinhas, é invenção. É invenção. Futebol é prático, é direto, é as peças que você tem. Você lida numa competição com machucão, com expulsão. Agora mesmo, nós fizemos um jogo com Ronny e Vinícius fora, que são dois jogadores que estão muito bem. Tudo isso acontece. Tinha um jogador aqui, antes de eu chegar no Náutico, Maylson, que vinha arrebentando. O Gallo [ex-técnico] perdeu ele. Quer dizer, são situações que a gente tem que encarar. Por isso que eu estou falando de grupo, e grupo é muito importante. Treinador é? É sim, é. Agora, o grupo é que vai ajudar e muito.

Qual você diria que foi sua missão no futebol, como jogador, treinador e nordestino?

Minha missão no futebol era ser vencedor. Essa missão que a gente acabou de falar, de nordestino, eu não consegui. Lutei muito, mas não consegui. Não sei se ainda vai dar tempo, não sei. Mas no futebol, não. Eu joguei 14 anos. Eu consegui jogar até os 34 anos, naquela fase que ninguém conseguia. Nenhum jogador… nenhum não, estou exagerando. Mas poucos jogadores passavam de 30 anos, 28 anos, por aí, e paravam. E eu fui até 34 anos, e ganhei 14 títulos, em 14 anos jogando. Porque teve ano que eu ganhei dois. Quer dizer, você joga 14 anos e ganha 14 títulos, é um vencedor. Eu hoje me dou o prazer de ter seis acessos. Que é difícil, ninguém tem. De estadual, eu tenho uma porrada. Só aqui em Recife, são cinco. Vai para Belém, são oito. Vai pra Maceió, são dois, CRB e CSA. América, um. Quer dizer, eu me considero um vencedor.

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