Parque de diversões que reproduz mundo adulto acende debate sobre proteção à infância
(Conteúdo escrito em 2015, para projeto durante a graduação em Jornalismo na Unicap)
O Shopping Eldorado, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, todos os dias tem seus corredores tomados por milhares de pessoas. O som em quase todo o espaço faz jus à intensa movimentação: conversas, música a meia altura, serviço de informação nos altofalantes. A exceção a esse burburinho fica no 2º subsolo. Basta descer a escada rolante para sentir uma mudança de ambiente: ao invés de vozes de adultos, passam a predominar gritos eufóricos de meninas e meninos. A reportagem descobriria, minutos depois, a causa da euforia dos pequenos. Eles estavam prestes a abandonar a condição de criança para experimentar uma sensação de independência ímpar, em atividades que muitos veem como educativas e lúdicas, enquanto outros identificam nelas a expressão máxima do conceito de “adultização” precoce.
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“Um dia, as crianças se cansaram do jeito que os adultos estavam administrando o mundo. Elas decidiram criar uma nação. Agora, elas tomam suas próprias decisões”, diz um anúncio no piso do shopping. O nome dessa “nação” é Kidzania – a razão do frisson infantil. Franquia de uma rede de mais de 20 parques de diversões que começou no México e se espalhou por outros dezesseis países, o espaço recebe por mês uma média de 25 a 30 mil crianças entre 4 e 14 anos desde sua inauguração na capital paulista, em dezembro de 2014. Essa garotada vai em busca da experiência de viver, por algumas horas, em um simulacro do mundo adulto. No Kidzania, se trabalha para se receber uma recompensa em moeda fictícia (“Kidzos”) e gastá-la comprando produtos dentro do próprio parque, onde estão presentes um total de 24 empresas, entre elas, marcas importantes como Burger King, CBN, Folha de São Paulo, Nikon, entre outras.
Por causa da presença dessas empresas no Kidzania, muitas entidades de defesa dos direitos da criança acusam-no de compactuar, dentro de seu espaço, com estratégias de marketing agressivas demais para um público infantil. Além disso, também existem queixas quanto à brincadeira praticada no parque, que alegadamente não estimula a criatividade e fomenta um estilo de vida consumista. Todas essas críticas são rechaçadas pelo gerente de comunicação do espaço, Lúcio Medina. Para ele, as marcas estão lá para desempenhar o importante papel tornar mais concreta a experiência do público, e não para transformá-lo em uma nação de pequenos consumidores. “A ideia não é de consumismo. Elas (as marcas) estão aqui para ajudar na questão do realismo. É muito mais legal para a criança aprender a fotografar, ou ter a primeira experiência com fotografia, com uma câmera Nikon do que com uma câmara genérica. Por mais que o estabelecimento tenha todo o apelo visual das marcas, a gente é quem opera isso e não permite que o parceiro faça esse tipo de approach com a criança”, alega.
Lúcio ressalta vários pontos positivos da experiência do Kidzania. Ele fala do parque como um local onde a criança tem seu primeiro contato com aquela que poderá ser seu trabalho no futuro – uma espécie de “teste vocacional”. “Aqui não tem roteiro, não tem um script determinado, não tem uma ordem de tarefas que ela tem que cumprir. Ela simplesmente chega numa cidade e descobre que ela vai trabalhar como carteiro, médico, jornalista. Ela brinca como uma criança livre, e aí ela acaba descobrindo um pouco como é cada profissão”, afirma. Segundo ele, o parque também ensina as crianças a cuidar de seu dinheiro. “A gente também orienta que a criança deposite esse dinheiro que ela faturou no banco, e leve para casa um cartão. Esse dinheiro fica salvo no banco e rende 2% ao mês. Quando ela voltar, ela aprende isso de economia”, explana.
“Edutenimento” ou adultização? É difícil negar que o parque tem, de fato, uma veia educadora. Mas o que muitos questionam é que tipo de educação ele tem disseminado entre seu público – a ideia de que a vida nada mais é do que “trabalhar para consumir”, por exemplo. Essa lição de meritocracia, no entanto, é justamente a característica do Kidzania que mais agrada a pais como Vinícius, que disse ter conhecido o espaço através da revista Veja e resolveu levar o filho Paulo, de sete anos. “Ele percebe que, executando uma atividade, ele recebe um retorno. Comentam muito aquela coisa do consumismo, mas não é verdade, porque a criança tem o contato de maneira lúdica com a experiência do dia a dia de um adulto. Então, ela aprende muito mais, um aprendizado interessantíssimo que uma escola não pode oferecer”, defende. O alto número de marcas no estabelecimento também não incomoda Nathalie, cujos filhos de seis e oito anos são habitués no local. “Putz… eu acho que tem que ser. Não é o único lugar que tem”, resigna-se.
Construído com um investimento de R$ 53 milhões, o Kidzania brasileiro foi o mais caro entre todas as unidades da franquia, com R$20 mi de vantagem em relação ao segundo da lista. O alto investimento definiu um novo padrão de lazer infantil no Brasil, e se propôs a trazer ao país o conceito de “edutenimento” – uma mistura de educação com entretenimento. Missão que, ao pé da letra, há de se admitir que o parque cumpre: as crianças que o conhecem, se encantam, e as atividades praticadas no local têm uma evidente proposta didática. São os valores ensinados no estabelecimento, contudo, que têm alarmado setores mais atentos aos estímulos a um estilo de vida consumista e pouco saudável.
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